Uma questão de Rugas

Fui ao dermatologista por causa de uma pinta que merece melhor avaliação e, também, por questão de estética. Com quase cinco décadas de existência, a pele já mostra marcas. Marcas do tempo que peguei sol, das vezes que expressei emoções e do tempo de vida que vivi. Peguei o guia para cuidar da pinta e informações sobre tratamentos existentes.

Percebi que, para as questões de estética, existem três níveis de intervenção. O tratamento começa com cremes e cosméticos corretivos que as empresas se empenham exaustivamente em pesquisar e desenvolver. Este é um investimento diário que, dependendo do produto, já exige um aporte financeiro significativo no orçamento mensal, considerando que é um tratamento de longo prazo, ou melhor, para sempre! O segundo nível são os tratamentos com produtos e processos específicos feito por médicos em poucas sessões, mas que precisam ser refeitos dentro de determinados prazos. E, por fim, as cirurgias corretivas, com custos, riscos e pós-operatórios doloridos.

Sai de lá com a pergunta: ‘Quanto estou disposta a gastar com a estética e para que exatamente? ’. Ainda não sei a resposta, mas sei que uma das soluções que sou veemente contra é a utilização do Botox, toxina botulínica. A ideia de aplicar uma toxina que paralisa os músculos para, assim, evitar as marcas de expressão, me parece um absurdo. Será que termos marcas de expressão e envelhecimento é tão condenável assim?

Talvez este conceito me recorde o lado maléfico do Retrato de Dorian Grey. Para quem não conhece esta obra brilhante e polêmica de 1891, acontece o seguinte: Dorian, o personagem principal dotado grande beleza, desejava que nunca sua aparência fosse alterada. O seu desejo é realizado. Ao invés de seu rosto mostrar as alterações causadas pelo envelhecimento e estilo de vida, é o seu retrato que padece. Assim, Dorian tem a liberdade para viver uma vida, libertina e amoral enquanto somente o seu retrato registrava o envelhecimento e as marcas de sua perversidade. Com isso, ele vai aos extremos em suas ações.

Os registros de nossas ações, que são impressos no nosso rosto, tais como cansaço, tensão, irritabilidade, proporcionam reflexão sobre o estilo de vida que escolhemos viver. Sem elas podemos não refletir e aprender com as experiências.

Outra razão para ser contra paralisar os músculos da face é o reconhecimento de que não existe um ser humano igual a outro. Somos únicos, desde nossa composição genética até as experiências e transformações que acontecem durante a vida. Qual o sentido de buscar uma estética única? Ou mais grave: buscar uma estética de boneca sem vida?

As emoções fazem parte da vida e dão o colorido para as experiências – na verdade, dão sentido para nossa vida. Infelizmente as emoções dão origem a expressões faciais e estas por sua vez dão origem às rugas de expressão. Quando sorrio, formam-se pés de galinha em volta dos olhos. Quando me surpreendo, aparecem linhas horizontais na testa. Quando dou um beijo, vejo um risco em torno da boca.

Não se deve temer as emoções e nem deixar que tomem conta de toda nossa vida, mas sem elas a vida pode ser muito insípida. Com o passar do tempo, estas experiências refletem em nossos rostos. O que fazer? Impedir as marcas ou mudar o conceito sobre as rugas? As marcas que contam uma história de existência merecem admiração!

Ainda estou pensando o que fazer quanto a questão da estética. Mas, se você daqui a três ou quatro décadas ver passar uma velhinha, baixinha, cheia de rugas e com um sorriso verdadeiro e brilho nos olhos, espero que seja eu!